09 Maio 2008

Cão de Rua

Eu sou o cachorro que você chutou lembra?
Em noites de solares postes regurgitando a suposta harmonia urbana.
Em noites de festas de bairros, que eu não entendia nada o que acontecia.
Amanhece e eu continuo andando alheio,
Vocês parecem mudar com os horários.
A Lua é minha amiga, e nunca larga seu posto ao meu socorro.
Vocês não enxergam-na como os poetas.
A Rua é companheira, me encharca com os restos da calçada.
Sua esquina guarda mistérios de rabos de saia não explorados.
Você me trouxe desgostos, mau gostos, agostos e tira-gostos.
À Tira-colo, na sarjeta, segui os Hare Krishna, dancei.
Esqueci um pouco que não era amado, apenas pela Lua que não vinha pra perto.
E no eclipse, vinha uma ansiedade que não sabia de onde.
Vomitava grama, rolava, o calor é intenso, nojento, aquela alma penada na
minha barriga gritava pra fugir, como um vinho quente aberto há três dias.
Azeda amarga amálgama, eu sou a carne de sol no dia seguinte.
Eu sou o dono que me abandonou,
o desfecho da estória,
O Cão, a Rua, o Sol amargo da ressaca.
As cores da coroa da esfinge.
Eu sou o Eclipse,
a ponta do seu sapato,

assino
[felipe galvan; o tenebroso irmão sem irmão, o abandono o inconsolado o sol negro da melancolia, a explosão, o exu, o anjo, o rei, o samba sem canção o soberano de toda a alegria que existia.]