20 Abril 2008

Onde está o Tártaro? Primeira Parte

Mal havia fechado a porta, Basílio o grita correndo no asfalto:

_J.L. “salvaê”. Cadê? Cadê?

Baixou a cabeça, fechando os olhos e trancando a porta:

_Humf...

_Aí truta tá de culundria?

_Hmm... _ Resmungou.

Ele usava camisa preta faltando um botão, Basílio comentou exaltado.

_Aí mano, posso chamar isso de “problema social”. Então tem aí ou não?

_Tem condição não.

_Vai chover cara, se eu fosse você, saia de guarda-chuva.

_Vai se foder Basílio!

_Ih J.L. parece até que alguém morreu.

_Ae Basa mais uma palavra e seus dentes vão parar na grama do vizinho.

_...

Alguém havia morrido sim, seu irmão Ramón. Ele queria sossego, cerveja, mais nada.

Silêncio de seu mau-humor ressonava no ambiente, era o único branco do bairro talvez, mas seu humor, parecia um vórtice que sugava as atenções de onde passa, silêncio brutal cortejando todo e qualquer tipo de encanto possível que as pessoas carregavam no seu caminho.

João Luiz, pobre de nascença, traços de um italiano periférico, nunca precisou de buscar nada mais de um metro de distância do próprio corpo pra formar aquela personalidade, na mais pura alegria de criança suga as atenções, com um quê tenebroso.

Nessa tarde chuvosa ele ia ao cemitério tocar violão ao lado do túmulo branco de Ramón entrando no ônibus, uma universitária daquelas que faz o mesmo trajeto a anos, uma figurinha repetida, um cérebro que trabalha por repetição, julgou J. L. Ela passou a mão no cabelo, ele a percebeu de relance, passou adiante não deixando nem seu silêncio gritante. Passou a catraca, olhou nos olhos do cobrador, não pagou, não lembrou e se lembrasse não pagava. Ele apresentou o documento que o tornava isento disso, o olhar. O cobrador fingiu que estava tudo bem, puxou o lenço do bolso misturado com dinheiro coçou o nariz.

Três pontos depois entra um sujeito todo de branco, um pagodeiro de cílios grandes, ao colocar um papel na lixeira, demonstrou gestos espaçosos, olheiras ativas, a maça do rosto parecia até suja de terra, e logo à frente do ônibus se assenta um sujeito com aparência árabe. J.L. olha a miséria do lado de fora, molhada pela chuva, que parece pouca pra tantas cãibras urbanas improvisadas ali, é um sobrado, e o filho casa, e faz mais um sobrado, até distender os nervos da cidade. Mais uma vez ele avistou aquela gostosa que fica na sua laje na altura da rua todo dia naquele horário, quando ela viu J.L. abaixou fingindo pegar algo no chão de shortinho curto e solto no corpo mostrando as dobras da bunda, J.L. olha apenas pra não humilhá-la publicamente, não quer saber de mulheres hoje, não quer saber de nada. Logo a frente chega um trecho perigoso que o motorista deve ir devagar, o solo erode gerando uma voçoroca e a rua Engenheiro Marciano Ferraz ao lado de um imenso barranco que sequer placa possui mas uma pedra famosa nas lendas urbanas que formigam no imaginário coletivo da falha de percepções, a pedra em forma de foice. Então o pagodeiro anuncia o assalto, e anda pelo coletivo como se fosse um guerrilheiro e um babaca no baile funk se achando o pegador de mulheres ao mesmo tempo, já se foi a época que os bandidos tinham estilo, esse cara deveria ser um office boy chocho andando por aí, sem vontade de estudar, e de nariz empinado que a velhice e falta de atividade mental logo tratariam de fazer descê-lo.

J.L. tratou de colocar sua carteira no canto do banco e ficar ali quieto com seu violão na capa, e tratou de se acalmar, o trocador já discava no celular e o sujeito árabe lhe deu uma coronhada, o celular caiu, o árabe pegou o no chão tirou a bateria e o jogou da janela, fez barulho na bananeira lá embaixo. Eles correram do ônibus quase que o pagodeiro cai de escorregão no barranco por causa do asfalto molhado misturado com terra, o motorista abre as portas uma senhora sai do chorando desesperada o cobrador o observa pegando sua carteira de volta, colocando o violão nas costas numa diferença de gestos em relação ao resto, a indiferença. O Cobrador gritava:

_Puta que pariu, nem acabei de pagar o celular.

J.L. ajeita seu cabelo maltratado e antes de descer do ônibus diz sem olhar:

_Tirou chinfra meu irmão, agora esse luxo tirou seu conforto de reclamar.

_ Puto, favelado, você não me escapa não cumpadi!

_Hmph,

Desceu do ônibus, a dona continuava chorando, ele abriu a carteira, tirou uma bala e entregou a ela:


_A vida é doce, minha senhora...

_Obrigada meu filho.

_Doce por pouco tempo.

Deu de ombros e seguiu o caminho inverso do ônibus, ele não queria voltar pra casa. Mas seguia, a rua tinha cheiro de terra molhada, era alta tinha uma paisagem bacana do arco-íris assaltando algumas varandas arejadas e vazias daquela tarde de terça-feira.

_Hum, vou ao boteco. _ falou sozinho.

Quando ouviu o ônibus partindo, olhou para trás, ele apenas arredava do barranco da foice, como era chamado nas região, atenção dos supersticiosos, então uma voz atrapalhada gritou:

_Ouuu, João Luiz !!! _ Ele se virou assustado, primeiro susto do dia. Era a mocinha da laje.

_Tá lembrado de mim não?

_Sim, você mostrou a bunda agora há pouco pra mim._ Ela riu como quem gostou.

_Nããão, estudamos na Franco Caldeira juntos no 3º ano lembra?

_Não.

_Ah João, fui tão carinhosa com você naquela última festa junina da sala você nem se lembra.

Então lhe ocorreu a cena do boquete no pomar deserto da escola à noite. Ele sempre quis saber quem era a moça, tinha bebido demais, não via o rosto, apenas se lembrava de um sorriso safado, e de olhos fixos cheios de vontade. Ela demonstrou a empáfia de abaixar a cabeça e olhá-lo nos olhos.

_Agora acho que me lembro, seu olhar me é familiar, perdão seu nome?

_Jana, Janaína.

_Ah Sim! Janaína, sim isso mesmo_ [cara, acho que ela nunca tinha me dito o nome]

_Como moramos no mesmo bairro por mais de quatro anos e não nos vimos?

_Esse bairro é estranho, esses bares, fliperamas, foices...

_ O que aconteceu com aquele ônibus? Tem polícia lá.

_Foi assalto.

_Como você está calmo assim?

_É que...

_Vamos, entre aqui, toma um café_ Ela pulou da laje e caiu como uma gata, o hábito faz o atleta do dia-a-dia, ele entrou, desceu as escadas encostou o violão do lado de fora na parte coberta e entrou na cozinha iluminada pelo cinza metálico das nuvens, boa janela de frente pra uma ribanceira, o Aglomerado São Sebastião parecia um buraco dali. Ela coava o café, com aquele shortinho vermelho, aquela bunda não era nada mal pensava João Luiz, ela notou o botão de sua camisa que faltava, deixou o café coando fumegante, deu a volta na mesa colocou as mãos nos ombros dele, e falou:

_Nossa você tá mesmo molhado, tira essa blusa, eu vou costurá-la.

_Não grila._Ela passou os braços pra frente e começou a desabotoar a camisa, chegou a boca ao pé do ouvido dele _ Claro que me preocupo, quero você vivo, circulando o sangue e bem quente, mas não de febre.

Isso trouxe lembranças de seu irmão, ele fechou os olhos e ouviu um barulho de pano, olhou para trás ela já estava sem blusa, com peitos médios que pesavam o bastante para causar a impressão que cedo ou tarde iriam arrebentar as alças daquele sutiã velho branco, como era um homem centrado logo esqueceu de seu irmão, e sentiu uma obrigação que dava mais cor ao dia cinza, não o papel de homem necessariamente, mas o papel de centrado. Levantou num pulo, pôs vontade naquele agarro, ela se transformou aos olhares insensíveis, e continuou a mesma pessoa para quem conhece bem as mulheres. Ela mordeu seu lábio ele freou o furacão nos olhos dela e disse com um sorriso no canto da boca:

_ você sabe que eu não gosto disso.

_tenho muitas coisas que você gosta.

Janaína entrou no quarto e puxou a cortina vermelha com desenhos de frutas que ficava no lugar da porta do quarto dela, o quarto era escuro, pobre, e vermelho por causa das cortinas da janela e da porta, a cama era dura, a vida também, ali foderam sem marasmo, sem solenidade alguma, apenas uma foda de perfil psicológico tântrico, ou seja não tinham tempo sequer de lembrar que um ônibus havia sido assaltado, ou que tinha café passado.

Ela saiu do conforto de dois corpos quentes para buscar um cinzeiro, João Luiz estava no meio do cigarro e não tinha aonde bater a cinza, ouvia-se passos, aproximavam, pisaram forte perto da janela derrubaram o violão de J.L. entraram na casa. Jana grita com os peitos de fora, ele pula da cama e corre, é o tal assaltante que parecia árabe, com seus olhos enormes, quase apostando corrida com seu nariz, João arma pra dar um soco, o árabe desvia e grita:


_Calma mano, me esconde, não to de sacanagem, tão querendo me matar.

_Cara, gostei de você, jogou o celular daquele babaca no barranco.

_Você tava lá então? Não se importa de eu estar armado?

_Teria mais medo de você pilotando um avião._Ele sorriu parecia ter um dente de ouro

_Sou filho de libanês, truta, tenho nada com isso não.

_Calma então os Ralibans tão vindo?

_Não sei se despistei, mas se eu continuasse esse caminho ia rolar, sangrar e morrer no meio das bananeiras, aconteceu isso com um tio meu, rolou uma duna abaixo com tanta violência e foi parar num cactus, não morreu com a queda, mas o cactus era venenoso, não quero que aconteça parecido comigo.

Pé na porta,

_é a polícia Filho da Puta! _ J.L pulou pro lado só de cuecas, o libanês pulou pro outro, deram de cara com a Janaína confusa, e segurando os peitos, boquiaberta, João quis rir, mas na hora entrou o trocador e apontou o Libanês e ao J.L.:


_São esse dois os malandros.

Vinham dois Pm´s os algemar, e quando o sargento foi entrar com o rádio na mão numa postura confusa e ereta tropeçou no violão caído na porta, seu 38 disparou, todos se assustaram então J.L. arrancou a arma do militar e a colocou em sua cabeça. O Libanês pegou a cabeça do outro PM e jogou contra a parede, Janaína pisou na mão do sargento ainda no chão, impedindo-o de sacar do revólver. O Libanês lutava contra o outro Militar, atordoado e sangrando pela pancada, João deu uma coronhada e tratou de desmaiar um dos Militares, Janaína chutou a cara do sargento, João pegou a arma dele na cintura, e apontou pro último que lutava:

_Tira essa farda!_ Ele acatou. Então desmaiaram o sargento, tiraram as fardas de todos, os amarraram, Janaína juntou alguns pertences, fugiram.

[Continua]

19 Abril 2008

Não me esqueço desse cristal que dança

Lento mas a todos alcança

Sem veneno nem pretensão

Com jeitinho de criança

Oferecendo o gosto do sol

Ao mais alto cume

Ao mais simples lamaçal

Ilumina o banquete

E a tapioca mais frugal

De trago em trago

De flor em flor

Favo de cores caridade sem favor

Esse mel é dito com certo fervor

Nas corriqueiras pontes da vida

Caminhos que nos levam

Para as estradas que trazemos

Bem amada comoção

Que foi corda dessa ponte

Aponta como uma flecha ao norte

Ou aponta ao sul com aleatória sorte.

Calça-me ao abismo da vida

Joga-me no caminho da morte

Com o horizonte sorrateiro me assusto

Sou tragado por um instinto divino

E logo dou meia volta astuto

Algo sinistro me vira à volta

Chamo a chuva que vem com luz e o derrete

Logo em breve essa mão me solta

Se eu dissesse malfazejos de meu pai

Será essa maldita mão aquela que me molda

Depois dessa tempestade da mente

Essa chuva se torna um arco íris

O arco íris se torna uma serpente

Protege-me como o olho de Hórus de Osíris

Persegue-me obediente

Mas no mínimo deslize do abrigo da mente

Sentirei no calcanhar seu veneno quente.


[felipe galvan]