02 Janeiro 2008

Quando o Segundo Cu Chegar

Senhoras normais alimentam passarinhos, regam plantas, falam das vidas dos parentes, já que não tem uma mais. Minha avó parece ser diferente, parece estar alimentando urubus, o cheiro da geladeira entrega isso, acho que a velha está ficando louca.Antes de dormir vou conferir o quarto dela, tenho certeza que a vi com uma pena preta na mão, e olhava pra essa pena como se fosse um neto ou sei lá, algo muito amado, de dar brilhos nos olhos.Parece que estou em queda moral, parece que derreto inclusive na altura dos rins, meus cotovelos na ponta têm uma espécie de tensão, desde que me separei de Emily, aquela empresa desgraçada parou de me pagar e me deixou na mão, meus estudos foram por água a baixo, esperava confiar na família próxima, agora depois de olhar minha própria e amada avó assim, me sinto um monte de merda derretendo pelo cotovelo e pelos rins, o fígado anda sendo apenas um detalhe.Saí de perto da Emily, ela nunca foi pra frente com tudo, sempre girava, girava, girava, e quem era arremessado era eu, um passo dois três sei lá à frente, ela nunca teve coragem de largar aquele trono de recalque, apesar de sua ousadia descomunal, se eu continuasse por lá iria me acabar com um segundo cu no lugar do coração, haja bomba pra circular tanta merda que alimentamos e mandamos pra nossa corrente sangüinea.Hoje cortei meu cabelo como um cidadão decente, deixei de ter um chumaço e voltei a ter costeletas, descobri porque há tantos gênios e bebuns no mundo, amam, amam e amam, até tirarem melecas do nariz e conseguirem enxergar pombas brancas no lugar, depois se fodem girando girando girando, e sendo arremessados, fogem do estigma do segundo cu, pra´onde a vida mais oferece tendências e oportunidades, mas nunca por acaso, NUNCA POR ACASO.Não sei quais desses serei, mas depois que revelei tudo a Emily, senti uma facilidade enorme em beber muito, em rir bastante, fumar mais charutos, banalizar a vida, e enfim, foder! Foder até os setenta anos de idade ou mais com todo e qualquer tipo de mulher até mesmo roliças, e perdoei a todas as nojentas que passaram por minha vida, perdoei todas as promiscuas, todas as chatas, frias, peludas, magras, gordas loucas, frígidas, roliças e até as de buceta fedorenta.Perdoei todas as buças do mundo, meu caralho me perdoou por perder tanto tempo apaixonado.Ando irritado com meus amigos, só falam de putaria, só fazem putaria, mas poderiam fazer calados. Ao invés de ouvir tanto prefiro investir mais no meu futuro, cursos, estudos, trabalhos me dão prazer, mas quero amigos legais pra me divertir, eles estudam, eles trabalham, eles tem carros e os dirigem, e vão no cinema, e são um vomito de cachorro bem estragado pois eu quando estava, fumando crack, bebendo cerveja, mijando na árvore e vomitando com a tampa da latrina batendo na minha nuca, eu cresci evolui e tentei fazer da minha vida ser mais alegre, cada um com sua válvula de escape, eu fui pela desgraça, eu fui pelo desamor, pela sarjeta, pela rua da amargura, mas essa rua cruza lá na frente com todos vocês, seja saindo dela ou empurrando outros e vocês pra ela, eles não têm culpa de serem idiotas, meu saco é que tava cheio, ocupando espaço, e dois corpos não ocupam o mesmo espaço no mesmo tempo, no universo preto e redondo, o cu da vida.
beijos de um amargurado porém bem degustado campari humano.

2 comentários:

Lorena Bezerra disse...

De fato, você realmente é um fiel discípulo de Bukowski.
Gostei da história sobre a avó. Normalmente estas são bem interessantes. A minha tinha alzheimer e sempre me banhava 17 vezes.

Vou está sempre por aqui. Abraços.

Denise disse...

Adoro o fato de nem sempre conseguir seguir seu raciocínio!!!!!!!